Diretor do Ideal fala de energia solar em encontro Brasil-Alemanha

Desde que foi firmado o convênio bilateral de transferência tecnológica entre Brasil e Alemanha no início deste ano, os governos dos dois países têm promovido encontros temáticos que visam auxiliar a formulação de políticas de apoio mútuo. Na semana passada, um encontro na cidade de Colônia, na Alemanha, discutiu especificamente a energia elétrica. Estiveram reunidos representantes da Eletrobras, Ministério Alemães de Educação e Pesquisa (BMBF), do Meio Ambiente (BMU), da Cooperação Econômica e Desenvolvimento (BMZ), o representante da empresa alemã Fuhrlander de energia eólica e o do Banco DEG (um braço do KfW, banco alemão de fomento). Um dos convidados para este encontro foi o professor da UFSC, Ricardo Rüther (foto), que é diretor técnico do Instituto IDEAL. Lá teve a oportunidade de falar aos dois governos o que está sendo feito em termos de energia solar e os planos para os próximos anos.
Rüther ressaltou o avanço da energia solar fotovoltaica na Alemanha, que só em 2005 instalou em geradores solares conectados diretamente à rede de energia o correspondente à Usina Térmica Jorge Lacerda, a maior a carvão da América Latina. No ano seguinte, as novas instalações solares na Alemanha corresponderam à potência nominal da usina de Angra II no Brasil. “São mais de 2.000 MW de novos geradores solares em somente dois anos. A quantidade de energia entregue à rede ainda depende do fator de capacidade que, em função da oferta solar somente diurna, é consideravelmente inferior ao das usinas nuclear ou termelétrica a carvão mencionadas. Porém, já estamos falando da mesma ordem de grandeza e esta é a principal novidade dos últimos tempos nesta área”, afirma Ricardo Rüther.

INCENTIVOS LEGAIS

Os alemães estão conseguindo avançar neste segmento por meio de um programa de incentivo, que paga aos geradores solares tarifas prêmio que têm um impacto tarifário distribuído por toda a população do país. Para financiar este programa, cada família alemã teve um aumento médio na sua conta mensal de energia elétrica equivalente a dois litros de leite. “No Brasil se pode pensar em algo semelhante, com um impacto tarifário também desta ordem, mas distribuído somente entre os consumidores de classe média e alta, e dar impulso a esta tecnologia que aqui tem um potencial muito maior do que lá”, acredita o pesquisador. Ainda em comparação com a Alemanha, atualmente o maior mercado da tecnologia solar fotovoltaica do mundo, é importante notar que as tarifas residenciais no Brasil são somente cerca de 25% mais baixas do que as alemãs. Por outro lado, o local menos ensolarado do Brasil ainda recebe cerca de 40% mais radiação solar do que o local mais ensolarado da Alemanha.

A geração solar com sistemas conectados à rede elétrica é normalmente vista como uma tecnologia para os países desenvolvidos, enquanto que os pequenos sistemas solares isolados, como aqueles que vêm sendo utilizados no Programa Luz para Todos do Governo Federal, são vistos como a aplicação mais apropriada desta tecnologia para os países em desenvolvimento como o Brasil. Esta lógica está baseada no ainda alto custo da geração solar, que para aplicações urbanas é mais cara que a geração convencional, mas para a eletrificação rural em pequenos sistemas dispersos é, em muitos casos, a alternativa de menor custo.

A análise da curva de redução de custos da geração solar (a “curva de aprendizado” da produção industrial desta tecnologia) mostra que cada vez que a produção acumulada desta tecnologia dobra, seu custo de produção tem caído em cerca de 20%. Por outro lado, as tarifas de energia elétrica residencial têm experimentado aumentos consideravelmente superiores à inflação e não existem indicativos de que esta tendência se modifique nos próximos 10 anos. Neste contexto se pode esperar que em algum momento estas duas tendências conduzam ao que se pode denominar de paridade tarifária: o momento em que o preço da tarifa convencional e o da geração fotovoltaica em telhados solares conectados à rede elétrica é o mesmo. “Com as taxas de juros que se pode atualmente utilizar para avaliar investimentos em geração, pode-se demonstrar que em várias regiões do Brasil este momento irá ocorrer durante os próximos dez anos. Esta é a boa notícia. A má notícia é que dez anos é um espaço de tempo curto para que o setor elétrico e a indústria brasileira acumulem a experiência necessária para receber quantidades consideráveis de pequenos geradores pulverizados em seu sistema de distribuição e para desenvolver as capacidades de produção necessárias para atender a este novo mercado”, explica Rüther. Voltando novamente à Alemanha, lá esta experiência já tem 20 anos e a paridade tarifária deve ocorrer também dentro de dez anos.

COMPLEMENTO ENERGÉTICO NAS EDIFICAÇÕES

Em um país com as dimensões do Brasil, o setor elétrico dominado pelo paradigma da geração centralizada pode começar a se beneficiar e a abrir espaço a tecnologias de geração distribuída como a solar integrada a edificações urbanas e conectada à rede elétrica, que gera energia junto ao ponto de consumo. Com a geração solar em telhados urbanos, perdas de energia e investimentos no sistema de transmissão e distribuição de energia são evitados. Estas micro usinas não inundam áreas nem ocupam espaço exclusivo, já que estão integradas às edificações.

Além disso, o Brasil, com sua grande quantidade de reservatórios hidrelétricos, apresenta uma matriz elétrica bastante favorável visando à incorporação de fontes renováveis intermitentes, como energia solar ou eólica. “Equilibrando a intermitência dessas duas fontes com a rapidez de controle das usinas hidrelétricas teremos estabilidade da rede elétrica, o quer dizer oferta energética, a qualquer momento. No mesmo tempo, quando não há necessidade, deixa-se de usar uma parte das turbinas hidrelétricas e assim aumenta o nível dos reservatórios e conseqüentemente a segurança de abastecimento”, explica Ruther.

O Brasil já tem alguma experiência com a geração solar fotovoltaica integrada a edificações urbanas e conectada à rede elétrica pública, tendo o primeiro gerador deste tipo recentemente completado dez anos de operação ininterrupta. Esta micro-usina, de operação automática que não requer operador e que não ocupa espaço extra por fazer parte de um prédio, gera energia elétrica de forma silenciosa, limpa e renovável, utilizando uma tecnologia muito apropriada para o clima do Brasil. Como esta, existe somente um punhado de outras instalações similares espalhadas pelo Brasil; quase todas elas, no entanto, estão operando em universidades, institutos de pesquisa ou concessionárias de energia. “Urge agora, enquanto a paridade tarifária não chega, estabelecer um amplo programa de telhados solares para que o Brasil comece a preparar o campo para as realidades que virão após a Copa de 2014”, aposta Ricardo Rüther.

AEROPORTOS SOLARES

Um bom exemplo para a aplicação da geração distribuída com sistemas fotovoltaicos integrados em edificações é sua implantação em prédios públicos, quase todos com uma curva de carga mais expressiva no período diurno. Essa particularidade, curva de consumo coincidente com o período de geração, permite o estabelecimento de estratégias de redução de consumo em edificações urbanas e conservação de energia primária nas unidades de geração centralizada. Em 2001, no denominado “apagão elétrico”, foi exigido dos consumidores uma redução de 20% em seu consumo e recentemente foi priorizado o uso de gás para geração termoelétrica para conservação de água nas hidroelétricas. Portanto, assegura o diretor do Instituto IDEAL, a integração de unidades de geração fotovoltaica em edificações urbanas, públicas ou privadas, além de representar um passo importante para o desenvolvimento da geração distribuída com sistemas fotovoltaicos no país, é uma ferramenta que deveria ser considerada nas estratégias de conservação de recursos primários, como por exemplo, água nos reservatórios das hidroelétricas.

Tramita na Câmara dos Deputados um Projeto de Lei cuja aprovação pode dar impulso a iniciativas neste sentido. Outra iniciativa que pode alavancar a tecnologia solar fotovoltaica no Brasil é o projeto Aeroportos Solares, desenvolvido pela Universidade Federal de Santa Catarina e a INFRAERO, cujo objetivo é estudar a integração de geradores solares aos principais complexos aeroportuários do Brasil. Os aeroportos são uma ótima vitrine para demonstrar esta tecnologia e ao mesmo tempo compensar um pouco das emissões de CO2 relacionadas à aviação comercial. Em uma viagem de ida e volta Florianópolis – Brasília, cada passageiro é responsável pela emissão de cerca de680 kg de CO2 na atmosfera, o que corresponde, à cotação de hoje no mercado internacional, a quase 40 Reais. “Por enquanto não estamos pagando o custo das emissões relacionadas a nossas viagens de avião, mas esta situação deve em algum momento mudar”, opina Rüther. O Brasil pode aqui também dar ao mundo um bom exemplo e “solarizar” seus aeroportos como medida compensatória ao impacto ambiental causado pelos seus usuários, utilizando o princípio de “o poluidor paga”. Assim, é possível imaginar um programa de dez anos em que a cada ano alguns aeroportos passam a integrar geração solar fotovoltaica.

Para tornar o aeroporto de Florianópolis completamente abastecido por energia solar, por exemplo, basta que ao longo de um ano cada um dos mais de 100 milhões de passageiros aéreos no Brasil pague menos de 25 centavos. Para fazer a mesma coisa no aeroporto de Brasília, o custo para cada passageiro ficaria em torno de R$ 1,40. “Se parece caro, mais caro será o custo de nossa falta de ação na questão das fontes renováveis de energia e do aquecimento global”, finaliza Ricardo Rüther.

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