Estudo inédito: Quais são as barreiras e oportunidades para as profissionais mulheres no setor de energia solar?

Com o intuito de compreender as barreiras para participação e representação de mulheres, os interesses e necessidades delas para a transformação do setor de energia solar em um ambiente mais igualitário e atraente para as profissionais, foi lançado, no dia 02 de junho de 2021, um estudo inédito no país: Energia solar no Brasil: Quais são as barreiras e oportunidades para as profissionais mulheres no setor?

O estudo analisa as questões de gênero no setor de energia solar brasileiro e tem como público-alvo as pessoas que nele atuam: tomadoras de decisão, empresárias, formadoras de políticas públicas e demais profissionais. Segundo João Favaro, assessor de projetos da C40, “O estudo tem o objetivo de apoiar a pesquisa setorial como forma de promoção da pauta de gênero no setor solar Brasileiro para o fortalecimento das mulheres no ramo.”

O lançamento foi realizado durante uma mesa redonda virtual, onde foram apresentados e debatidos os resultados do novo estudo. O webinar foi transmitido através do canal do youtube da Rede MESol e contou com a presença de representantes de diversos nichos do setor de energia solar.

O relatório analisa as questões de gênero no setor brasileiro de energia solar a partir de dados secundários de 1.268 empresas disponibilizados na Relação Anual de Informações Sociais (Rais) e a partir das respostas de 251 mulheres ao questionário disponibilizado às trabalhadoras do setor. O estudo contou com coordenação executiva da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha do Rio de Janeiro (AHK RIO), financiado pelo o C40 Cities Finance Facility e Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH, e parceria da Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar ( MESol ), Instituto para o Desenvolvimento de Energias Alternativas na América Latina (IDEAL) e do Centro de Pesquisa e Capacitação em Energia Solar da Universidade Federal de Santa Catarina (Fotovoltaica-UFSC).

Kathlen Schneider (Co-autora do estudo, co-fundadora da Rede MESol e diretora do Instituto IDEAL) apresenta o estudo como sendo uma resposta à falta de informações, estudos e dados desagregados por gênero e todas as suas interseccionalidades, como raça idade e região no setor energético, dificultando a compreensão dos desafios, interesses e necessidades das profissionais que atuam no ramo. “Esse é o primeiro estudo, e esperamos que seja o primeiro de muitos, que traz essas análises e quando a gente fala em construir um setor mais diverso e inclusivo, se a gente não tem esses dados, se a gente não conhece o contexto, fica muito difícil traçar ações de estratégias para tornar o setor de energia solar no Brasil mais justo, igualitário e respeitoso para todas as pessoas que atuam nele.”, afirma Kathlen

O desenvolvimento e crescimento da energia solar no Brasil tem beneficiado não apenas o ambiente, mas também a economia, com a inclusão de novos empregos. Entretanto, os dados levantados neste estudo demonstraram que homens e mulheres têm se apropriado de maneira desigual dessas oportunidades: As mulheres são minoria no setor solar no Brasil – 32% na média histórica, o que está alinhado aos padrões internacionais. No entanto, esse número vem caindo, sobretudo entre 2016 e 2019, o que indica a ampliação da participação dos homens no setor. Os resultados do estudo trazem os seguintes questionamentos, que, conforme recomenda Natália Chaves (Co-autora do estudo, especialista em Energia Solar – AHK Rio de Janeiro/ MESol), será preciso que mais análises sejam realizadas, para que possamos entender com maior profundidade os motivos das diferenças das mulheres no setor de energia solar”:

  • Por que os homens ganham, em média, 31% a mais que suas colegas de trabalho, ainda que em situações de mesma escolaridade, idade e tempo de emprego?
  • Por que as mulheres possuem pouco acesso a cargos de diretoria e liderança?
  • Por que não tem mulheres assumindo carreiras de cargos técnicos?

“A igualdade como espécie existe. E existe essa mesma igualdade quando comparamos salários e posições? Como conseguiremos trazer mais mulheres para a área de Energia Solar sem valorizar as características dessas mulheres? Precisamos sem dúvida mudar o nosso comportamento para tudo isso. Apesar de uma presença relevante, as mulheres possuem escassa ou nula visibilidade em posição estratégica”, afirmou Aline Pan, professora da UFRGS e co-fundadora da Rede MESol.

Quando questionadas sobre quais as barreiras que as mulheres têm que enfrentar para se inserirem e permanecerem no setor, o machismo e o preconceito foram amplamente mencionados, seguidos pelo entrave à “falta de credibilidade” no trabalho que elas desenvolvem, especialmente quando se trata das áreas Stem. O estudo ainda permitiu verificar que 57% das profissionais do setor que responderam ao questionário já sofreram algum tipo de violência, com destaque para a violência psicológica (47,4%). Ainda, 71,7% já foram discriminadas em seu ambiente profissional, especialmente por questões de gênero. “Além delas serem a minoria no setor, quando elas estão lá, não estão sendo bem tratadas, não são ouvidas e não são levadas a sério”, pontuou Patrícia Betti (Co-autora do estudo, especialista em Estudos de Gênero – Apoena Assessoria e Treinamento Socioambiental) em sua fala no evento de lançamento.

Ainda durante a sua participação no Webinar, Aline Pan fez um desabafo muito importante, do qual destaca-se o seguinte trecho: “Os desafios são muito urgentes e é essencial uma transição para um modelo justo e necessário. Nesse trânsito, 50% das vozes não podem permanecer silenciadas, que são as de nós, mulheres. Eu quero continuar sendo mulher, mãe e profissional da área de energia solar com orgulho. Desejo que todas as mulheres que queiram mergulhar nessa área se sintam amparadas e não amedrontadas. Desejo que cada uma possa fazer suas escolhas baseadas em suas vontades e não em uma situação idealizada de carreira feita pelos homens. O intuito do desabafo é fomentar as vozes e que todas nós sejamos ouvidas.”

Em sua conclusão, o estudo aponta a necessidade de incluir a pauta de gênero no setor solar brasileiro e sensibilizar seus principais atores quanto ao tema, principalmente os homens. “O setor tem muita possibilidade de crescimento e a gente tem que deixar ele mais atraente para as mulheres” afirmou a Larissa Boing (Co-autora do estudo, especialista em Estudos de Gênero – Boing Assessoria e Treinamento. A diversificação da matriz energética brasileira precisa caminhar junto com a ampliação da diversidade de gênero e raça para que o setor de energias renováveis, aproveite todo o seu potencial de crescimento e de inovação, não apenas de energia solar.

 

Capa do estudo

Link para o estudo:

https://c40cff.org/knowledge-library/quais-so-as-barreiras-e-oportunidades-para-as-profissionais-mulheres-no-setor

Link para o Evento de Lançamento:

https://www.youtube.com/watch?v=bDw5EqYWzxg&t=2307s

Sobre a Rede MESol

A Rede Brasileira de Mulheres na Energia Solar (MESol) é um grupo de mulheres com formação científica e técnica que pesquisam, ensinam e trabalham na área de aplicações da conversão da energia solar. O grupo se reuniu em torno do diagnóstico compartilhado sobre a desigualdade de gênero no setor energético, com o objetivo de conectar, apoiar e inspirar mulheres para atuarem ativamente no processo brasileiro de diversificação e transição energética.

Desde a sua formação em 2019, após a realização do I Encontro de Mulheres na Energia Solar, a Rede MESol tem realizado e participado de diversas atividades trazendo a pauta da igualdade de gênero para a mesa, sensibilizando agentes do setor sobre a importância de debater o tema, e também conectando as mulheres que atuam no setor.

Sobre o C40 Cities Finance Facility

O C40 Cities Finance Facility (CFF) apoia cidades de países em desenvolvimento e emergentes no desenvolvimento de projetos de infraestrutura de baixo carbono, resilientes e financeiramente sustentáveis. É financiado pelo Ministério Alemão de Desenvolvimento e Cooperação Econômica (BMZ), Departamento Britânico para Negócios, Energia e Estratégia Industrial (Beis), Agência para Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos (Usaid) e Children’s Investment Fund Foundation (CIFF). O programa é implementado pela parceria entre o C40 Cities Climate Leadership Group (C40) e a Deutsche Gesellschaft für Internationale Zusammenarbeit (GIZ) GmbH. No Brasil, quatro cidades pertencem ao grupo C40: Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Curitiba (PR) e Salvador (BA).

Escrito por: Jéssica Bertolino Gregório (voluntária MESol) e Aline Kirsten (co-fundadora MESol)

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